Life is a mystery
Everyone must stand alone
I hear you call my name
And it feels like home
Jane Doe - Another Company, LLC
Foram essas palavras que o segurança responsável por fazer a ronda noturna escutou ao passar em frente a porta de um dos quartos da ala onde residiam os cobaias da terceira facção. A voz melodiosa chamou a atenção do homem que fora preso por aquele canto belíssimo. Não era alto, mas o suficiente para que quem se aproximasse da porta pudesse ouvir seu ressoar. E Enoch não só ouviu, como também se sentiu encantado, ao ponto de passar pela mesma porta toda noite para ouvir a cantoria que lhe passava uma sensação de tranquilidade em meio a turbulência que era seu emprego. Para começar, não o agradava sem por cento a ideia de estar ali. Sendo oriundo da Zona Dois, as suas opções de emprego não eram das melhores. Não que ele reclamasse de qualquer coisa que arrumava para fazer naquela zona caótica, afinal, entrando dinheiro era o que valia. Mas ele também estava ciente de que não estava em opção de recusar qualquer oportunidade que aparecesse. Foi por isso que topou aquela oportunidade estranha já que havia acabado de ser demitido de seu emprego anterior e ele precisava urgentemente de dinheiro. Se o perguntassem, ele confessaria que aquilo estava longe de ser o que ele esperava. No início, achou que seria apenas um segurança normal de algum ricaço qualquer da Zona 04, mas o que ele encontrou superou qualquer expectativa que tinha. E honestamente? Não sabia dizer se isso era bom ou ruim. Apenas cumpria suas obrigações e seguia com sua vida. Até aquele dia. Até escutar aquela voz que iria mudar tudo.
Descobrir quem era sua dona foi só uma questão de tempo. Ela, como todos os outros ali ou pelo menos a grande maioria, não tinha nome, mas era representada por números. A cobaia 2741, a primeira vista, não parecia ter nada de especial, mas ela chamava atenção pelo seus olhos. Pelo menos a atenção dele, ela chamou. Eles eram grandes e lindos, como duas pedras preciosas. E lhe davam um charme que só ele conseguia enxergar, por mais que soubesse que era errado. Errado no sentido de que não tinha como dar certo, devido a barreira que tinham entre si. Então ele apenas se conformava em escutá-la e observá-la de longe.
Enoch não saberia dizer exatamente quando se apaixonou, mas se deu conta quando se pegou imaginando como seria se eles pudessem ter uma vida juntos longe dali. Contudo, a realidade batia na cara quando ele se lembrava que não haviam trocado nenhuma palavra sequer e que havia uma grande possibilidade de não ser mútuo. E não foi mesmo, por pelo menos três anos.
Era um dia chuvoso quando trocaram palavras pela primeira vez. A abordagem partiu da cobaia, que perguntara como estava o clima. Havia escutado a chuva e comentou que sentia falta dela já que fazia muito tempo que estava ali. Tempo demais para sequer lembrar qualquer coisa sobre o próprio passado. Talvez a memória que tinha da chuva e todas as outras fossem até mesmo algo que criou para confortar-se com a própria realidade, mas enfim… As conversas iniciais eram bastante sutis, simples e com o passar dos dias foram evoluindo para diálogos mais longos quando era possível, o que normalmente não acontecia muito. Então entre diálogos banais que evoluíram para rotina, sonhos ou metas futuras, uma atração foi surgindo entre ambos e consequentemente uma paixão, que evoluiu para amor.
Protect me,
my Aurora.
Jane Doe - Another Company, LLC
O envolvimento era perigoso e ambos sabiam que a paixão proibida trazia vários riscos, mas a carne é fraca e em dado momento, acabaram cedendo a tentação e permitiram se amar em plenitude. Foi arriscado, foi insano, foi excitante e foi um momento de descuido, no futuro, que decretou o destino dos dois.
Com o passar das semanas, vieram os primeiros sintomas e com eles, as preocupações. Aurora, como foi nomeada por seu amado, temia pela sua criança. Sabia que ela não teria chance nenhuma ali, talvez sequer a deixassem ter o filho. Existia a possibilidade de lhe forçarem um aborto, apesar de que duvidava de que deixariam uma possível cobaia ir assim. Então o que fazer para evitar que seu filho ou filha tivesse o mesmo destino que si? Fugir era uma opção e seria maravilhoso se desse certo, mas não tinham aliados. Seriam apenas eles dois, a cara e a coragem. Também havia a opção de esperar o parto e tentar tirar a criança dali, mas esta era a mais incerta das possibilidades.
I can be anything that you want me to
Jane Doe - Another Company, LLC
Pois bem, a rotina de qualquer criança na facção era, praticamente, a mesma. Aquele lugar branco, bem protegido, rodeado de pessoas de índole questionável nunca intimidaram 4494. Talvez estivesse no seu sangue não se deixar abalar desde jovem. Ao contrário de muitos de sua idade, ela não tinha receio de estar ali e tampouco tentava se esconder, fazendo questão de se destacar dentre aquele bando de pirralhos. Haviam outras crianças notáveis, sim, e ela queria ser melhor que todos eles e se esforçava para isso. Para aulas? Estudava até não poder mais. Os treinos? Dedicava-se com tudo. A verdade era que 4494 tinha um espírito muito competitivo que era, em parte, a maior de sua motivação. Ela era, para a facção, o tipo perfeito de peão. Competitiva, com sangue nos olhos, disposta a ir até o final para conseguir o que queria, custasse o que fosse. Mas que ao mesmo tempo tinha uma personalidade fácil de lidar com os outros, comunicava-se bem com as outras cobaias e cientistas e por incrível que pareça, não causava problemas, apesar de tudo.
Tais características e especialidades a levaram a ser destinada a duas diferentes especificações. Primeiro, a de hacker. Sua mente processava rapidamente informações, então não demorou a pegar o jeito nessa área e se tornar boa até demais nela. E em segundo, espionagem. 4494 era pequena, discreta e muito esperta. Ela conseguia passar despercebida nos lugares, se fazer presente sem que ninguém percebesse. Tinha o tino para arrancar informações, coletar o que era útil ou o que poderia vir a ser útil e tomar decisões em situações de pressão. Ah sim, pressão era algo com o que lidava muito bem. Desde que tinham a intenção de infiltra-la em diferentes corporações, ter um bom controle emocional era a peça chave e por mais que não parecesse, ela tinha. Afinal, missão é missão e no trabalho não há erros.
I'm changing my getup for anything you choose
Jane Doe - Another Company, LLC
A parte referente a combates também não ficou para trás. Ela poderia não ser a mais forte de todas, mas era, em compensação, muito ágil. E sabia usar bem uma arma ou faca, caso precisasse; apesar da intenção ser que não precisasse. Em suma, 4494 era mais uma máquina de guerra dentre as tantas outras que tinham ali. Excelente no que fazia, não aceitava cometer erros, então tentava manter sua margem no mínimo beirando ao inexistente. Era uma das peças favoritas da facção, estimada. Eles só não contavam, contudo, que lhe faltasse o principal: lealdade.
A verdade é que por mais que gostasse de ter seu ego bem alimentado pela aprovação da facção, ela não gostava de estar ali. De estar presa. De ser mais um número dentre tantos outros. Uma peça descartável que quando não tivesse mais utilidade seria jogada fora. Eu não vou dizer que tinha a melhor das personalidades, na real, ou morria de apreço pelas pessoas. Não, não era bem assim. Tal como vários outros, lhe faltavam uma certa empatia para entender muitas coisas de forma natural, como se espera de qualquer ser humano normal. Mas a sua vida não era normal; e ainda assim, achava toda aquela situação extremamente problemática. Não era justo tirar das pessoas a chance de escolher, de privá-las de viver, reduzi-las. E era por isso que estava motivada a dar um fim aquilo. Primeiramente para si e em seguida para os outros. Mas para dar certo era necessário um esforço enorme para não foder com tudo e por isso, ela se esforçava para ser a melhor. Afinal os melhores naquele lugar eram recompensados, saiam dali e ela precisava sair dali para começar a trilhar seu caminho para destruir a facção.
Dissimular-se, então, fazia parte de sua rotina. Se precisasse fingir até o último fio de cabelo que era leal, ela fazia. Se precisasse se humilhar para conseguir algo, por mais que odiasse, ela fazia. E foi assim que passou despercebida pelos cientistas: fingindo. Mostrando 100% entregue, uma verdadeira cadelinha. Com as demais cobaias, por outro lado, a relação era mista. Muitos viviam em desconfiança e ela não os julgava por isso. Alguns eram mais fáceis de lidar, outros nem tanto e ela pretendia escolher aqueles com quem iria se aliar, quando estivesse fora. Mas por quê fora? Bom, vejamos: ela não confiava em outra pessoa para que seu plano desse certo. Não nas cadelinhas da facção ao menos. Ainda que visse potencial em mais de uma, não poderia colocar tudo a perder antes mesmo de seu plano de fuga ser posto em prática, então resguardou-se; procurando se aliar com duas criaturas completamente improváveis mas facilmente manipuláveis.
Hina e Akito eram dois faz tudo na facção. Um dois vários que tinham ali. Dentre as coisas que faziam estava: arrumar depósitos, entrar com suprimentos, dar um fim em corpos de cobaias, cuidar do jardim, limpar alguma coisa ou qualquer outra coisa que fosse ordenado. Eram pessoas simples, os típico cidadãos pacatos e estereotipados da Zona 04. Não entendiam muito bem o que estava acontecendo ali, acreditavam que era um tipo de hospital ou coisa assim e tinham sim suas dúvidas a respeito do que era aquele lugar ou do que acontecia de fato ali, mas como não tinham um real acesso a realidade das cobaias, exceto pelas que encontravam no jardim ou as que já tinham passado dessa para melhor, acreditavam se tratar de apenas pessoas em tratamento mesmo. Assumiram isso e aceitaram. Talvez fosse seus inconscientes tentando os deixar livre de perigo, enfim.
Para chegar até os dois, foi necessário analisar os funcionários dali. O que cada um fazia, suas rotinas e isso levou tempo, tanto por causa de suas próprias obrigações como cobaia tanto porque não podia deixar nada óbvio. O primeiro contato que teve foi com Hina, nos jardins. Não era incomum que cobaias tivessem seu banho de sol por lá, então ela aproveitou um desses dias para puxar conversa com a mulher. Coisas banais, para começar. Sendo numa dessas conversas que descobriu que ela era casada com outro funcionário dali e começou a abordá-lo, também no jardim.
Os assuntos eram variados e foi necessário paciência até começar a conversar sobre o que realmente importava. 4494 queria saber como era a Zona 04 realmente, o que aqueles dois faziam ali e principalmente, como era a vida deles fora dali. Acabou descobrindo então que a Zona era basicamente composta por fazendas, mas que possuía uma parte da cidade, o que ela já sabia. Que os dois cuidavam do descarte de corpos, além de outras coisas, e como foi dito pela Hina “Era bem triste que aquelas pobre almas não pudessem ter um enterro digno, sendo levados na noite, como se não fossem nada porque as famílias não os queriam mais.” Sim, eles não eram nada mesmo, de certa forma. E sim, serem rejeitados pela família era uma das desculpas da facção para que ninguém questionasse o motivo dos corpos não serem reivindicados.
Enfim, tirando isso, acabou por descobrir que eles tinham um filhinho, que normalmente ficava sob os cuidados dos pais de Rosalind ou Rosa, como ambos carinhosamente chamavam uma mulher jovem, na casa dos 20 anos que também trabalhava por ali exercendo funções similares, em especial aquelas que lhe interessavam, ainda que a parte de atuar no necrotério fosse muito raramente. E é claro, que para 4494, essa informação era ouro.
Tratou então de se aproximar de Rosa, o que foi, diga-se de passagem, bem difícil. A mulher era tímida, muito calada, arrancar informação dela era quase um sacrifício e foi necessário um verdadeiro show de coitadismo e de certa forma sofrimento, para que ela começasse a se abrir. A verdade é que ela apenas estava ali pelo dinheiro. Tinha que ajudar os pais, idosos, a se sustentar de alguma forma e aquela era a única opção mais viável no momento. Seu sonho era ir estudar na Zona 01, para dar uma condição melhor para seus velhinhos e finalmente se livrar daquele lugar aterrorizante. Até estava economizando para isso! Mas até lá, tinha que se submeter ao que mandavam, tentando ignorar a sensação angustiante que aquele belo lugar lhe passava.